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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Scarlett - animated short (Scarlett Contra el Cancer) Lindo...Scarlett luta contra o cancer...

sexta-feira, 1 de julho de 2016


Lei Menino Bernardo completa dois anos de incentivo à educação sem violência



Akemi Nitahara - Repórter da Agência Brasil
Um evento com exposição itinerante, roda de conversa e palestra na Defensoria Pública do Rio de Janeiro lembrou hoje (29) os dois anos de promulgação da Lei 13.010/2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, que estabelece como direito da criança e do adolescente serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante.
O nome da lei é uma homenagem ao menino Bernardo Boldrini, morto em abril de 2014, aos 11 anos, em Três Passos (RS). Os acusados são o pai e a madrasta do menino, com ajuda de uma amiga e do irmão dela. Segundo as investigações, Bernardo procurou ajuda para denunciar as ameaças que sofria.
O evento foi organizado pela Rede Não Bata, Eduque, que trata do tema há dez anos e ajudou na discussão para aprovação da lei. A coordenadora da organização, Márcia Oliveira, disse que a lei é um marco no combate à violência contra as crianças, assim como a Lei Maria da Penha é no caso da violência contra a mulher.
“A Lei Menino Bernardo traz um novo olhar sobre o processo educativo e de cuidados com crianças e adolescentes. A ideia é que os pais, responsáveis e todos os responsáveis que lidam com crianças de alguma forma, percebam que bater, xingar, humilhar, não é um processo educativo e que busquem outras alternativas.”
Segundo Márcia, a educação não violenta de crianças e adolescentes requer uma mudança cultural na sociedade brasileira. “A gente acredita que está construindo uma sociedade menos violenta, em que o processo de educação e de cuidado tem um novo olhar. Todas as pesquisas dizem que quando você bate na criança para educar, que as pessoas fazem uma confusão com disciplina, você está ensinando violência.”
Estatuto
Participante da roda de conversa, a coordenadora de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado do Rio de Janeiro, Eufrásia Souza, ressalta que a lei reafirma os direitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e não cria nenhuma modalidade penal.
“As pessoas dizem equivocadamente que o pai que bater no filho vai ser considerado criminoso como estuprador, assassino. Não é isso. A lei não traz nenhuma tipo de punição na esfera criminal, nenhuma inovação na legislação penal, além do que já está previsto, como maus tratos, homicídio, estupro. A lei é afirmativa, ela assegura o direito de toda criança e adolescente ser criado sem o uso de castigo físico ou tratamento cruel ou degradante”, explicou.
Segundo a médica pediatra Rachel Niskier, do Instituto Fernandes Figueira e da Sociedade Brasileira de Pediatria, pesquisas comprovam os malefícios da violência no desenvolvimento da criança e do adolescente.
“A criança que é criada com violência, xingamento, palmadas, tapinha, tapões, não importa, ela cresce insegura, com maior possibilidade de desenvolver mais tarde, seja na adolescência ou na fase adulta, problemas de comportamento, chegando até a marginalidade, problemas de saúde mental, depressões, suicídio e outros problemas que podem interferir na vida pessoal e social dela”, listou. “Óbvio que são casos extremos”, acrescentou.
Para a pediatra, a lei sozinha não vai fazer “milagre social”, mas é um avanço. “Quando atendo um menino que fica sozinho em casa doze horas porque sua mãe precisou sair de casa de madrugada para fazer faxina a três horas de ônibus da sua casa e esse menino ficou sozinho sem um acompanhamento da sua comunidade, sem a proteção das políticas públicas que lhe dessem escola de qualidade em tempo integral, possibilidade de outras atividades lúdicas esportivas culturais, eu sinto até uma pena tanta discussão, tanto tempo jogado fora, quando se sabe que sem uma estrutura social, política e econômica adequada não adianta que milagres não acontecem”, lamentou.
Experiências
Bolsista da Rede, Tiago de Araújo Silva, 17 anos, é um dos facilitadores do diálogo nas rodas promovidas pelo projeto em locais como clínicas da família e escolas. Ele conta que conseguiu melhorar a própria relação com os pais e que seus irmãos mais novos já não recebem as palmadas que ele levou quando “aprontava”. Segundo Thiago, o objetivo das rodas de diálogo é romper com o ciclo de violência na sociedade.
“A gente faz essa metodologia com adolescentes, idosos e temos visto resultado, a gente está passando a importância de não usar a violência. É um grande desafio, porque muita gente foi ensinado que bater é a forma certa de educar, mas com muita insistência e perseverança a gente vai quebrando esse pensamento deles, agora estão tendo uma visão de que bater não é certo e que educar sem violência dá certo. Idosos dizem que se arrependem de terem usado violência para educar os filhos e estão passando isso para os netos, rompendo o ciclo de violência.”
A jovem Débora da Cruz da Silva, 21 anos, integra o programa Rap da Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde, que dialoga com outros jovens de forma lúdica e dinâmica para tratar temas relacionados à saúde.
“Tem adolescentes que são mães, que não sabiam lidar com os filhos e acabavam indo para a violência. Tem uma parte da roda que são os sentimentos, quando chega nessa parte muitas delas contam que se arrependeram, que todo o processo da roda fez com que elas mudassem a visão e já começam a pensar em estratégias, que é a última parte da roda, vê que realmente tem como educar sem violência.”
Edição: Luana Lourenço
Fonte:http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-06/lei-menino-bernardo-completa-dois-anos-de-incentivo-educacao-sem

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Melhor do mundo, professora usará prêmio de US$ 1 milhão na educação

Hanan Al Hroub conquistou o prêmio com metodologia baseada em jogos.
Para o G1, afirmou que a educação é capaz de recuperar o que foi perdido.

Laura LewerDo G1, em São Paulo
Melhor professora do mundo, Hanan Al Hroub dá aula para seus alunos na Samiha Khalil Mixed Secondary School (Foto: Kamal Azraq)Melhor professora do mundo, Hanan Al Hroub dá aula para seus alunos na Samiha Khalil Mixed Secondary School (Foto: Kamal Azraq)
Ajudar outros professores, fundar uma escola, apoiar universitários e apoiar os próprios filhos. Essa é só parte dos planos que a professora palestina Hanan Al Hroub, de 44 anos, tem para o prêmio de um milhão de dólares recebido por ela. A educadora nascida e criada em um campo de refugiados na Cisjordânia foi premiada com o Global Teacher Prize, que busca professores que fazem ‘contribuições excepcionais para a profissão’.

Hanan, que trabalha com crianças de seis a dez anos em uma escola governamental de Ramalá, se tornou professora primária depois que seus filhos desenvolveram problemas psicológicos e de saúde após assistirem a um tiroteio. Sem conseguir o auxílio que as crianças precisavam, iniciou, em casa, um processo de recuperação lento por meio de jogos.
Em entrevista ao G1, ela contou sua trajetória e detalhou como pretende ajudar quem passa pelas mesmas necessidades que enfrentou para promover a educação em seu país.
A experiência se tornou o pilar de todo o trabalho da professora, que, baseando-se no slogan “não à violência”, conseguiu eliminar a agressão em sala de aula e espalhar o método para outras escolas e professores, além de recuperar alunos afetados pela violência. Os jogos usados por Hanan e suas ações foram reunidas no livro ‘We Play and We Learn’, publicado apenas em páginas do Facebook por falta de verbas.
Eu vivi uma infância difícil. Cresci no campo de refugiados palestino Dheisheh em Belém, onde a privação estava por todos os lados"
Hanan Al Hroub,
professora
G1 - Como foi sua infância e a relação de sua família com a educação? 
Hanan Al Hroub - Eu vivi uma infância difícil. Cresci no campo de refugiados palestino Dheisheh em Belém, onde a privação estava por todos os lados. No entanto, as pessoas de lá desenvolveram um grande espírito de cooperação.

Meu pai de 80 anos estudou apenas até a sexta série, mas encorajou e encoraja a família a buscar educação. Minha mãe foi uma dona de casa e não recebeu nenhuma educação formal [a mãe de Hanan morreu há 25 anos após enfrentar um câncer]. Todos os meus irmãos são formados, um em administração de negócios, o segundo em contabilidade, o terceiro em jornalismo e o resto terminou o ensino médio e foi trabalhar com negócios. Minhas três irmãs são professoras.
Os soldados de Israel atiraram no carro e meu marido foi atingido no ombro."
Hanan Al Hroub
G1 - Você diz que as coisas mudaram na sua vida quando seus filhos foram vítimas de um ato de violência. O que aconteceu e como isso os afetou?
Hanan Al Hroub - Em 2000, quando meus três filhos pequenos voltavam da escola com o pai deles e a esposa de seu tio, eles cruzaram o ponto de verificação [barreira militar criada por Israel] entre Belém e Wadi Fukin, onde morávamos. Os soldados de Israel atiraram no carro e meu marido foi atingido no ombro. Minhas filhas gêmeas tinham apenas nove anos e o irmão menor estava na primeira série.

Antes disso, eles eram normais, sem problemas psicológicos ou de saúde. Eram espertos e amavam sua escola. Depois, suas atitudes e comportamentos foram afetados. Tive que fazer muitas pesquisas sozinha para encontrar a melhor maneira de ajudá-los.
Depois do ataque, perderam a confiança, se tornaram arredios e ficaram com medo de ir para a escola por um tempo."
Hanan Al Hroub
G1 - Como foi o processo para recuperá-los do trauma?
Hanan Al Hroub - Eu vi o medo experimentado pelos meus filhos, como isso afetou o bem estar e o psicológico deles. Depois do ataque, perderam a confiança, se tornaram arredios e ficaram com medo de ir para a escola por um tempo.

Combatemos isso como uma família unida pedindo conselhos de profissionais, de psiquiatras a médicos. Também tivemos discussões e consultas com a administração da escola. Os professores, no entanto, não eram treinados para ajudar crianças a lidar com traumas.
Como resultado, nós os tratamos e os ensinamos em casa e progredimos. Eles conseguiram completar seus estudos e ficaram bem academicamente. Sua confiança e sociabilidade retornaram gradualmente também.
G1 - Qual foi o momento decisivo para você se tornar uma professora?
Hanan Al Hroub - O que aconteceu com meus filhos foi um momento decisivo para mim. Eu também vi que tantas outras crianças, direta ou indiretamente, são expostas à violência na Palestina e precisam de cuidados especiais, paciência e apoio em sua educação escolar. Por causa disso, decidi me tornar uma professora primária que pudesse ajudar crianças em escolas públicas que estão passando por esse tipo de trauma.
A palestina em seu trabalho, onde usa o método de ensinar por meio de jogos (Foto: Kamal Azraq)A palestina em seu trabalho, onde usa o método de ensinar por meio de jogos (Foto: Kamal Azraq)

Melhor do mundo, professora usará prêmio de US$ 1 milhão na educação

Hanan Al Hroub conquistou o prêmio com metodologia baseada em jogos.
Para o G1, afirmou que a educação é capaz de recuperar o que foi perdido.

Laura LewerDo G1, em São Paulo
Melhor professora do mundo, Hanan Al Hroub dá aula para seus alunos na Samiha Khalil Mixed Secondary School (Foto: Kamal Azraq)Melhor professora do mundo, Hanan Al Hroub dá aula para seus alunos na Samiha Khalil Mixed Secondary School (Foto: Kamal Azraq)
Ajudar outros professores, fundar uma escola, apoiar universitários e apoiar os próprios filhos. Essa é só parte dos planos que a professora palestina Hanan Al Hroub, de 44 anos, tem para o prêmio de um milhão de dólares recebido por ela. A educadora nascida e criada em um campo de refugiados na Cisjordânia foi premiada com o Global Teacher Prize, que busca professores que fazem ‘contribuições excepcionais para a profissão’.
Em entrevista ao G1, ela contou sua trajetória e detalhou como pretende ajudar quem passa pelas mesmas necessidades que enfrentou para promover a educação em seu país.
Hanan, que trabalha com crianças de seis a dez anos em uma escola governamental de Ramalá, se tornou professora primária depois que seus filhos desenvolveram problemas psicológicos e de saúde após assistirem a um tiroteio. Sem conseguir o auxílio que as crianças precisavam, iniciou, em casa, um processo de recuperação lento por meio de jogos.
A experiência se tornou o pilar de todo o trabalho da professora, que, baseando-se no slogan “não à violência”, conseguiu eliminar a agressão em sala de aula e espalhar o método para outras escolas e professores, além de recuperar alunos afetados pela violência. Os jogos usados por Hanan e suas ações foram reunidas no livro ‘We Play and We Learn’, publicado apenas em páginas do Facebook por falta de verbas.
Eu vivi uma infância difícil. Cresci no campo de refugiados palestino Dheisheh em Belém, onde a privação estava por todos os lados"
Hanan Al Hroub,
professora
G1 - Como foi sua infância e a relação de sua família com a educação? 
Hanan Al Hroub - Eu vivi uma infância difícil. Cresci no campo de refugiados palestino Dheisheh em Belém, onde a privação estava por todos os lados. No entanto, as pessoas de lá desenvolveram um grande espírito de cooperação.

Meu pai de 80 anos estudou apenas até a sexta série, mas encorajou e encoraja a família a buscar educação. Minha mãe foi uma dona de casa e não recebeu nenhuma educação formal [a mãe de Hanan morreu há 25 anos após enfrentar um câncer]. Todos os meus irmãos são formados, um em administração de negócios, o segundo em contabilidade, o terceiro em jornalismo e o resto terminou o ensino médio e foi trabalhar com negócios. Minhas três irmãs são professoras.
Os soldados de Israel atiraram no carro e meu marido foi atingido no ombro."
Hanan Al Hroub
G1 - Você diz que as coisas mudaram na sua vida quando seus filhos foram vítimas de um ato de violência. O que aconteceu e como isso os afetou?
Hanan Al Hroub - Em 2000, quando meus três filhos pequenos voltavam da escola com o pai deles e a esposa de seu tio, eles cruzaram o ponto de verificação [barreira militar criada por Israel] entre Belém e Wadi Fukin, onde morávamos. Os soldados de Israel atiraram no carro e meu marido foi atingido no ombro. Minhas filhas gêmeas tinham apenas nove anos e o irmão menor estava na primeira série.

Antes disso, eles eram normais, sem problemas psicológicos ou de saúde. Eram espertos e amavam sua escola. Depois, suas atitudes e comportamentos foram afetados. Tive que fazer muitas pesquisas sozinha para encontrar a melhor maneira de ajudá-los.
Depois do ataque, perderam a confiança, se tornaram arredios e ficaram com medo de ir para a escola por um tempo."
Hanan Al Hroub
G1 - Como foi o processo para recuperá-los do trauma?
Hanan Al Hroub - Eu vi o medo experimentado pelos meus filhos, como isso afetou o bem estar e o psicológico deles. Depois do ataque, perderam a confiança, se tornaram arredios e ficaram com medo de ir para a escola por um tempo.

Combatemos isso como uma família unida pedindo conselhos de profissionais, de psiquiatras a médicos. Também tivemos discussões e consultas com a administração da escola. Os professores, no entanto, não eram treinados para ajudar crianças a lidar com traumas.
Como resultado, nós os tratamos e os ensinamos em casa e progredimos. Eles conseguiram completar seus estudos e ficaram bem academicamente. Sua confiança e sociabilidade retornaram gradualmente também.
G1 - Qual foi o momento decisivo para você se tornar uma professora?
Hanan Al Hroub - O que aconteceu com meus filhos foi um momento decisivo para mim. Eu também vi que tantas outras crianças, direta ou indiretamente, são expostas à violência na Palestina e precisam de cuidados especiais, paciência e apoio em sua educação escolar. Por causa disso, decidi me tornar uma professora primária que pudesse ajudar crianças em escolas públicas que estão passando por esse tipo de trauma.
A palestina em seu trabalho, onde usa o método de ensinar por meio de jogos (Foto: Kamal Azraq)A palestina em seu trabalho, onde usa o método de ensinar por meio de jogos (Foto: Kamal Azraq)
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terça-feira, 12 de abril de 2016

"A escola não é um edifício, são as pessoas"

"A escola não é um edifício, são as pessoas", diz idealizador da Escola da Ponte

09/04/2016 14h50



Mariana Tokarnia – Repórter da Agência Brasil

A aprendizagem não depende de edifício, salas de aula, quadro ou giz. Não precisa sequer de aulas no modelo tradicional. A escola é feita de pessoas e é nessas pessoas que todo o sistema de educação deve focar. Este conceito educacional, que mais parece utopia, vem sendo colocado em prática em escolas no Brasil e no restante do mundo. O professor José Francisco de Almeida Pacheco é um dos que mostrou que é possível educar de maneira inovadora e inclusive melhorar indicadores educacionais com esses métodos. 
Ele é o idealizador da chamada Escola da Ponte, em Portugal, um projeto educacional que tem como base uma escola sem séries, sem prova e focada na autonomia e protagonismo do aluno. Pacheco é português, mas acredita que é do Brasil que partirão as ideias que poderão transformar a educação no mundo.
Atualmente, mora em Brasília e integra um grupo de trabalho do Ministério da Educação (MEC) para mapear escolas inovadoras. O grupo chegou a 178 escolas no país, entre estabelecimentos das redes pública e privada. Ele conversou com a Agência Brasil sobre suas principais ideias e sobre os rumos da educação no país. Segundo ele, o Brasil tem tudo que precisa para oferecer uma educação de qualidade. No entanto, é preciso que as escolas tenham autonomia. “Enquanto não houver escolas autônomas, é uma ilusão pensar que as coisas vão melhorar”.
Lei a seguir os principais trechos da entrevista:
Agência Brasil: O que é necessário para se ter uma educação de qualidade?

José Pacheco: O que é preciso é acesso à informação e um mediador chamado professor. Quando falamos em escola pensamos no edifício, a escola não é um edifício, a escola são as pessoas. O que uma criança em idade escolar aprende dentro do edifício da escola que não pode aprender fora dela? Não perca muito tempo pensando. Nada. No Brasil, o [antropólogo e educador] Tião Rocha fez uma escola debaixo de uma mangueira, que nem edifício tem. Há cursos a distância, que nem edifício têm. Então, por que temos que pensar que todos têm que ir para lá? Pior do que isso, em muitas áreas rurais fecham-se escolas e os alunos levantam-se às 4h da manhã, com sono, para entrar no ônibus, para andar três hpras, por caminho de terra, para receber quatro horas de aula e voltar. A fortuna que se gasta em compra, com manutenção, combustível,  seguro, pagamento ao motorista, etc, as vezes leva quase metade do orçamento da educação.

Agência Brasil: Como deve ser formado esse professor?

Pacheco: É um professor como qualquer outro, feito com a mesma matéria, com a mesma formação, mas que em determinado momento da vida quer ser honesto consigo mesmo, ser ético. Se o professor dá aula e percebe que não está ensinando a todos, não pode continuar fazendo aquilo porque está excluindo, negando um direito. Se um professor diz: “Mas eu não sei trabalhar com este aluno”. Se não sabe, vai aprender. Os professores chegam da universidade cheios de Vygotsky [Lev S. Vygotsky], Piaget [Jean Piaget] e não sabem fazer mais do que dar aula. E dar aula é contrário ao que se lê na teoria. Quem lê Vygotsky não pode continuar dando aula. O professor forma-se através da sua própria prática com os outros, transforma-se com os outros, a profissão de professor não é um ato solitário, tem que ser um ato solidário. O professor sozinho em sala de aula era coisa do século 19, das salas de aula dos conventos, da Revolução Industrial. E esse professor merece ter um bom salário, e pode ter, voltando à questão anterior. O dinheiro que hoje é gasto com educação chega e sobra para pagar bem os professores.

Agência Brasil: Isso falando no nosso orçamento atual?

Pacheco: Sim, cerca de R$ 100 bilhões.

Agência Brasil: E qual o papel da universidade?

Pacheco: O que a universidade tem que perceber é que o modelo de ensino faliu. Há muito tempo. Quando ela reproduz esse modelo, ela está sendo a matriz do que é a escola. A universidade parou no tempo. Estou falando do curso de pedagogia, de formar professores. Quando eu fui professor de pedagogia, o que eu encontrei foram professores que estavam mal. Eu perguntava: "por que dão aula?" Eles não sabiam, mas diziam que eram obrigados a dar aulas. "Mas obrigados por quem?" "Mandam que eu ponha no sumário o que eu vou dar no semestre”. E eu dizia: "mas com pode ser? Não sabem que, pela teoria, dar aula é inútil? Então por que dão aula?" "Damos porque nos obrigam". É esquizofrenia total. Eu compreendo os professores universitários, por isso que eu fui embora e não voltei mais. Mas acompanho as universidades, trabalho com universidades e respeito o trabalho que eles fazem. Há universidades no Brasil que já não têm aula nem turma.

Agência Brasil: A Escola da Ponte foi criada em uma área de maior vulnerabilidade, voltada para aqueles tidos como os piores alunos. Que diferença faz dedicar os melhores projetos para estudantes em situação de maior vulnerabilidade?

Pacheco: Essa nomeclatura de melhores e piores existe na escola tradicional, porque na escola dita renovada, transformada, todos são melhores, cada um no seu momento, cada um segundo seus valores. Quando se fala em educação no campo, educação especial, educação de adultos, educação formal, informal, eu me pergunto: "por que se fala assim? Por que não se fala só em educação?" Se as escolas desenvolvessem um trabalho em que cada um fosse acolhido e no qual fosse dada a condição de aprender, não seria preciso falar de programas, projetos e planos. A escola cumpriria seu projeto político-pedagógico. Um dos problemas é esse, que a escola não cumpre seu projeto político-pedagógico e, como não cumpre, continua a dar aula e a ter turma. Há crianças que não aprendem.

Agência Brasil: Atualmente, quando há uma troca política, há grandes impactos na educação. Como as escolas podem ser menos afetadas pelas decisões governamentais?

Pacheco: A meta 19 [do Plano Nacional de Educação - lei que define metas para melhorar a eduação em dez anos] estabelece que municípios, estados e o Distrito Federal deverão criar condições para o excercício da autonomia e condições de gestão democrática nas escolas. Se isso for concretizado, se forem alcançados os termos de autonomia das escolas, elas vão usar da autonomia pedagógica, administrativa, financeira. Mesmo que haja mudança da orientação politica, da prefeitura, as escolas continuarão, com toda calma, a desenvolver seu projeto. Enquanto não houver escolas autônomas, é uma ilusão pensar que as coisas vão melhorar.

Agência Brasil: Como o senhor vê a educação no Brasil?  

Pacheco: Quando se fala da educação no Brasil, fala-se dos defeitos, das cifras, das pesquisas, do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], que são efetivamente trágicos. Eu prefiro falar da parte saudável do Brasil. Prefiro ver o copo meio cheio e não meio vazio. Fico muito feliz por aprender com escolas brasileiras, com autores brasileiros, que estão transformando o Brasil, sem que o Brasil perceba. Pessoas que vão colaborando com as secretarias de educação, com o MEC, muitas vezes tendo contra si as secretarias e os burocratas do MEC. Vivo muito nessas escolas onde eu aprendo com professores que eu me orgulho de acompanhar e que sabem que é no Brasil que está nascendo a nova educação do mundo. Não é na Europa, não é nos Estados Unidos. Eu diria que, além dessa parte educacional que põe professores doentes e alunos que não aprendem, há a parte saudável, uma grande parte que eu conheço, outra que eu não conheço. Elas mostram que o Brasil tem tudo que precisa: bons teórios, bons projetos, bons professores. Só falta fazer. E falta que as universidades percebam que há esses projetos, que o MEC crie condições e que as secretarias celebrem termos de autonomia da escola. O resto é só deixar com a formação dos professores e com a comunidade.

Edição: Denise Griesinger
FONTE :http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-04/escola-nao-e-um-edificio-sao-pessoas-diz-idealizador-da-escola-da-ponte

Papa defende educação sexual e diz a pais que evitem controle excessivo


O papa Francisco recomendou hoje aos pais que evitem "uma invasão nociva" da vida pessoal dos filhos porque, garantiu, "a obsessão não é educativa", embora faça "sempre falta alguma vigilância".
"A obsessão não é educativa e não se podem controlar todas as situações pelas quais poderá passar um filho", lembrou na exortação apostólica "Amoris Laetitia" (A alegria do amor), publicada hoje.
Francisco sublinhou que "a família não pode renunciar a ser um lugar de apoio, de acompanhamento, de guia" dos filhos e recomendou que "não se deve deixar de questionar quem oferece entretenimento e diversão, quem entra nos seus quartos pelos ecrãs".
"Faz sempre falta alguma vigilância. O abandono nunca é saudável. Os pais devem orientar e alertar as crianças e adolescentes para que estas saibam enfrentar situações em que possam existir riscos, por exemplo, de agressões, de abuso ou de consumo de drogas", afirmou.
Mas "se um pai está obcecado em saber onde está o filho e controlar todos os seus movimentos, apenas procura dominar o seu espaço".
"Desse modo, não o está a educar, a fortalecer, não o está a preparar para enfrentar os desafios. O que interessa sobretudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de capacitação, de crescimento integral", explicou.
Francisco defendeu que "só assim esse filho terá em si mesmo os elementos de que precisa para saber defender-se e para actuar com inteligência e astúcia em circunstâncias difíceis".
Por esse motivo, "a grande questão não é onde está fisicamente um filho, com quem está em preciso momento, mas onde está num sentido existencial, onde está posicionado nas suas convicções, objetivos e desejos".
Como solução, o papa afirmou que "só os momentos passados com eles (jovens), a falar com simplicidade e carinho de coisas importantes e possibilidades sãs criadas para que eles ocupem o seu tempo, permitirão evitar uma invasão nociva".
No capítulo intitulado "Sim à educação sexual", Francisco considerou ser "difícil pensar a educação sexual numa época em que a sexualidade tende a banalizar-se e a empobrecer-se". Por outro lado, "só pode ser entendida no marco de uma educação para o amor".
"A educação sexual deve dar informação, mas sem esquecer que as crianças e os jovens não atingiram uma maturidade plena. A informação deve chegar no momento apropriado e de maneira adequada à etapa que vivem", recomendou.
"De nada serve inundá-los de dados sem o desenvolvimento de um sentido crítico perante uma invasão de propostas, perante a pornografia descontrolada e a sobrecarga de estímulos que podem mutilar a sua sexualidade", acrescentou.
O papa criticou a expressão "sexo seguro" por "transmitir uma atitude negativa em relação à finalidade de procriação natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo do qual é preciso proteção".
"Assim se promove a agressividade narcisista em vez do acolhimento. É irresponsável qualquer convite aos adolescentes para que brinquem com os seus corpos e desejos, como se tivessem maturidade, valores, compromisso mútuo e objetivos próprios do matrimónio", considerou.
A exortação 'Amoris Latetia' foi escrita a partir das conclusões dos sínodos dos bispos para a família, extraordinário e ordinário, que decorreram, respectivamente, em Outubro de 2014 e 2015.

sexta, 08 abril 2016 12:11
Publicado em Mundo
Fonte:http://www.expressodasilhas.sapo.cv/mundo/item/48253-papa-defende-educacao-sexual-e-diz-a-pais-que-evitem-controlo-excessivo


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Roseli de Deus Lopes: “A criança nasce cientista. É a escola que a silencia”

A engenheira da Universidade de São Paulo, idealizadora de uma das maiores feiras de ciências do país, diz que falta de infraestrutura ou de professores com formação específica não é impeditivo para o ensino do método científico aos alunos


FLÁVIA YURI OSHIMA
05/04/2016 - 08h00 - Atualizado 05/04/2016 11h53

A criança faz as perguntas certas.  A gente é que desaprende a enxergar isso”, diz  Roseli de Deus Lopes, engenheira e professora da escola Politécnica da Universidade de São Paulo, no departamento de sistemas eletrônicos.  Roseli foi a idealizadora da Feira Brasileira de Ciencias e Engenharia, a Febrace, que este ano completou 14 anos. O evento reúne projetos de alunos de escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio de todo o país. Uma vez por ano, esses projetos são exibidos e explicados durante três dias na USP para um público que reúne universidades, empresários e outros alunos. Os projetos apresentados na feira (gratuita) já rodaram o mundo, ganharam prêmio e mudaram a trajetória de alunos, professores e comunidades inteiras. Na entrevista a seguir, a professora Roseli de Deus Lopes defende que não é preciso dinheiro nem recursos supermodernos para o (bom) ensino de ciências, computação e matemática. Vontade é o material necessário, diz ela. A professor defende, entre outros pontos, que mesmo professores com formação deficitária fazem a diferença quando se envolvem com as ideias das crianças.
Roseli Lopes, professora do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da USP (Foto: Divulgação)




















ÉPOCA - Como surgiu a ideia de montar uma feira de ciências?
Roseli de Deus Lopes - Há 15 anos, percebemos que para estimular jovens a irem para a universidade, precisaríamos atuar na educação básica. Eles não sabem que são supercriativos e que têm esse potencial todo para ser mostrado aqui. Fizemos uma pesquisa e identificamos que mesmo as escolas que faziam os melhores trabalhos em ciências tinham uma questão: os trabalhos nessas escolas eram muito mais de reprodução. O professor mostrava uma tecnologia e o aluno montava alguma coisa muito parecida com aquilo só para ilustrar. Não era um movimento em que se tenta buscar os problemas e uma solução para eles. Era o oposto. Eles buscavam problemas que fizessem sentido para aquela tecnologia que já estava desenvolvida. Então, era um raciocínio às avessas, de colônia mesmo. A receita já vem de outro lugar, você monta e ensina as pessoas a usarem. A gente percebeu que o problema era anterior a esse. Não era uma questão de aprender a usar a tecnologia, mas, sim, o de provocar um olhar mais observador por parte do aluno para que ele identifique os problemas e aí o uso das tecnologias vem mais naturalmente. Partir do problema é um jeito de fazer as disciplinas da escola fazerem sentido na vida. Para que eu vou querer biologia? Não é só para passar numa prova, ou num vestibular. Eu tenho de perceber o valor que aquilo tem para a minha vida.
ÉPOCA - Esse foi o critério para selecionar os trabalhos que poderiam participar da feira?
Roseli - Sim. O objetivo da Febrace não era ser grande, mas, sim, ser representativa. Queríamos ver o que está acontecendo nas escolas públicas e privadas deste país afora. Começamos a desenvolver uma série de materiais e de ações para estimular as escolas a adotar esse tipo de trabalho e a realizar pequenas feiras internas para estimular esse ambiente. As feiras de projetos são importantes porque são um espaço de troca. A gente aprende observando o que o outro está fazendo.Criamos um curso online que mostra o que é fazer um projeto, e o que é o método da pesquisa tecnológica. É um curso que indicamos tanto para os professores quanto para os alunos. Preparamos os cursos online colhendo materiais nas feiras. Então, nesse curso online, há exemplos de pessoas que fizeram projetos em diferentes situações. Adotamos uma linguagem simples e bem voltada para a prática. Nossa preocupação é que ele vá colocando em prática de acordo com a complexidade que cada faixa etária permite, ao invés de ele se aprofundar demais na teoria e perder o fio da meada na prática.
ÉPOCA - O alvo são as crianças de qual idade?
Roseli - Nós fizemos o curso numa linguagem simples que mesmo crianças já alfabetizadas a partir do fundamental I (6 anos de idade)já acompanhem. A ideia é que o professor faça o curso primeiro e ele mostre o mesmo material para orientar os alunos. O papel principal do professor é em relação às questões de segurança e de ética na pesquisa. A criança é tão curiosa e tão criativa que às vezes propõe ações e formas de investigar as hipóteses que formulam que podem colocá-la em risco físico ou em risco emocional. Imagine se ela elabora um questionário que possa colocá-la em situações constrangedoras. A ideia é que o aluno faça um plano de ação e procure um professor ou um outro adulto que possa orientá-lo e que avalie se as perguntas e as suposições estão bem formuladas, ou se os materiais que eles teriam de usar estão disponíveis na escola e se apresentam algum risco na manipulação. Como eles têm de viajar, nos concentramos na faixa etária de 13 a 20 anos. Mas, incentivamos que nas escolas e nos municípios, eles trabalhem com todas as faixas etárias. A criança nasce cientista, nasce engenheiro e tecnologista e a escola ruim é que o cala. Ela mata a curiosidade, mata a capacidade de a criança observar.
ÉPOCA - Como as crianças vêm parar aqui? Vocês vão até eles ou é um movimento que parte da escola ou do aluno?
Roseli - Hoje temos uma rede diversa. Ao longo desses anos, fomos credenciando feiras. Metade dos alunos vem por submissão direta e a outra metade vem através de outras feiras. Pelo ambiente virtual mantemos o contato e o estimulo às escolas e aos alunos que se interessam em participar. Então, quando o aluno traz alguma questão que o professor não consegue resolver, ele recorre à comunidade Febrace para buscar o apoio de alguém. A gente também recomenda que ele busque em sua própria comunidade esse apoio: na universidade da cidade ou na escola técnica que pode ter peritos naquele assunto. A ideia é que as escolas peçam inclusive ajuda para usar a estrutura da universidade para seus testes de hipótese.
Há situações, ainda, que o movimento parte totalmente do aluno. Se ele quer participar e não consegue o suporte da escola (sim, existe isso), ele procura ajuda fora para montar o seu projeto. Numa edição da feira, demos um microscópio como prêmio para um determinado projeto. Avisamos que o aparelho não era para as crianças, mas, sim, para a escola. Quando chegou o final, muito delicadamente, as crianças me chamaram para dizer que tentaram uma professora na escola, mas não encontraram ninguém que quisesse ajudá-las, nem mesmo a direção da escola. Então, pediram ajuda para uma vizinha que estava começando a fazer engenharia em Maringá, no Paraná. Por isso, eles não queriam levar o prêmio para a escola porque achavam que a diretora trancaria o aparelho no depósito e desdenharia do prêmio. Eu os convenci que esse seria mais um motivo para eles levarem o prêmio para a escola, para mostrar do que foram capazes e de como era importante dar apoio aos alunos.
ÉPOCA - Qual é a resposta hoje de quando as escolas e alunos pedem ajuda nas universidades?
Roseli - Há 14 anos, eu diria que era difícil receber esse retorno. Mas com o tempo, conseguimos trazer mais visibilidade para os projetos com ações conjuntas com o ministério de educação, com as universidades e as agências de fomento. Hoje, as universidades não estranham mais quando recebem pedidos da garotada. Há dois anos, foi criada uma bolsa de iniciação científica júnior e isso facilitou muito. Muitas universidades hoje têm programas de pré-iniciação. Esse processo de valorizar as iniciativas dos alunos da educação básica tem rolado. 
 
ÉPOCA - De quanto é essa bolsa para alunos da educação básica?
Roseli - É de R$ 1 200 no total. O valor pode parecer pequeno, mas para alguns essa é justamente a verba que falta para ele poder comprar alguma coisa para o projeto ou para ele poder se deslocar até a universidade. O mais importante é o valor simbólico dessa bolsa porque ele abre a porta dos centros universitários, dos centros de pesquisa. Antes, o orientador tinha medo de ter o aluno no laboratório. Agora, com a bolsa, ele tem também um seguro para a pesquisa. Antes tínhamos muitas situações informais. Hoje conseguimos ter situações formais de pesquisa com crianças e adolescentes. 
ÉPOCA - Vocês já conseguiram acompanhar o destino das crianças que passam pela experiência científica?
Roseli - Estamos fazendo pesquisas com alunos e professores que participaram de feiras e também alunos que submeteram seus trabalhos mas que não foram aprovados para participar da feira. O que aconteceu com essa criança, como ficou o envolvimento dela com a pesquisa? Os resultados são animadores. Eles nos relatam que aprenderam a desenvolver um trabalho seguindo o rigor científico, a respeitar todas as etapas, a melhorar a pesquisa, a apresentá-la. Com as crianças que participaram das feiras, as mudanças são ainda maiores. Eu mesmo me surpreendo. Tem menino que eu vi no primeiro dia de feira e voltei a falar com ele no terceiro dia e ele parece outra pessoa. Eles se desenvolvem muito depressa! O fato de serem estimulados a conversar com pessoas diferentes sofistica o discurso deles. Eles têm de treinar falar com um avaliador que ficará mais tempo e com um jornalista que ficará 10 minutos com eles. Eles estão conseguindo desenvolver essa capacidade de raciocínio, de pescar o que é mais importante de acordo com o tempo e público. 
ÉPOCA - Além da comunicação, que é superimportante, que outros aspectos essas crianças e adolescentes desenvolvem?
Roseli - Muitos. Inclusive lançaremos um série inspiradores, contando algumas histórias. Alguns dos alunos que passaram por aqui estão começando o doutorado, outros criaram suas empresas. Uma das alunas que mais me encanta participou de uma das primeiras feiras.Ela tinha medo de ir ao Butantã. Mas o instituto  foi até a escola pública buscar esses alunos. Ela disse que não queria ir aos laboratórios porque tinha medo dos bichos. O orientador do Butantã, que já tem muita experiência com crianças, soube se aproximar e explorar esses receios dela, tranformando-os em curiosidade. Ela queria saber porque o escorpião estava há tanto tempo na Terra. Ela não era um aluna nota dez. Mas motivada por essa pergunta, desenvolveu um trabalho belíssimo. Passou por uma rodada estadual, nacional e participou de duas feiras internacionais. Essa menina entrou em biologia e ela é absolutamente apaixonada pela área – e ela não era antes. Agora quer fazer medicina porque descobriu a motivação da vida dela. Ela investigou o veneno do escorpião para descobrir formas de usar as propriedades do veneno para curar as pessoas. Já fez estágio no Butantã, no InCor (Instituto do Coração), sendo que no InCor ela conseguiu o estágio com o contato de uma pessoa que viu o trabalho dela aqui na feira. Então, essa rede de contatos tem de ser estimulada. Esse é um investimento que só pode dar certo. É importante falar também dos professores. Motivados pelos alunos, eles passaram a investir mais em suas carreiras. Muitos desses professores estão voltando para fazer pesquisa em educação em suas áreas. Muitos estão voltando a fazer mestrado e especializações.
ÉPOCA - Há muita diferença entre a escola pública e a privada?
Roseli - Essa é uma boa pergunta porque me dá a oportunidade dedesmistificar um pouco o ensino das ciências e da tecnologia. Aqui a gente tem escolas que ficam no interior do Maranhão, que não têm estrutura, mas que têm o essencial, que é alguém que tem  vontade e que acredita que pode fazer a diferença. São alunos e professores que aprendem a fazer perguntas qualificadas.
ÉPOCA - O que é preciso ter na educação básica para fazer da pesquisa uma cultura?
Roseli -
 A principal coisa é acreditar que dá para mudar, que dá pra fazer ciência em qualquer circunstância. Quando vemos um vídeo com todos esses sotaques diferentes criando e tocando seus projetos, vemos que tudo é possível. Temos histórias de crianças pequenas que geraram impacto em suas comunidades e criaram soluções sem nenhuma infraestrutura.
No interior do Ceará, havia um problema com a pesca do camarão numa comunidade ribeirinha. A pesca estava acabando também com os camarões filhotes. Isso colocava a oferta de  camarões em risco de extinção e também diminuía a rentabilidade dos pescadores. Os camarões pequenos pesam menos. A aluna que participou da Febrace estava triste porque ela teria de mudar para outra local se a pesca acabasse. Então, ela quis fazer um projeto que buscasse uma solução para esse problema. Ela projetou uma armadilha de camarões com uma rede de espaçamento maior para liberar os camarões pequenos. E ela também mudou a amarração. Antes era usado plástico, e os peixes estavam comendo plástico e morrendo. Com o material que ela usou, que é biodegradável e se desfaz rapidamente, ela também solucionou esse problema. O pai não queria que ela o  testasse. Daí ela foi pescar com a armadilha escondida dele. Ele então percebeu que a armadilha pegava uma quantidade menor de camarões, mas eles eram maiores, então ele carregava menos peso e conseguia ganhar o mesmo dinheiro. Ela conseguiu convencer a comunidade inteira. Com a ajuda do professor orientador, ela conseguiu um contato com o Sebrae para criar uma empresa e replicar a solução. Crianças que passam por experiências como essas passam a acreditar que podem fazer qualquer cosiaÉ uma questão econômica, porque estamos fomentando futuros empreendedores. E é social porque a questão do desenvolvimento social só será equacionada se cada um acreditar que pode mudar a sua comunidade. 
ÉPOCA - A baixa qualidade da formação dos professores é um impedimento para esse tipo de programa?
Roseli - Temos de ser realistas. Se eles tivessem uma formação melhor, seria mais fácil. Mas temos de trabalhar com o professor que está na escola. Quando  quer, ele faz diferença. Temos exemplos de professores com formação muito precária e em realidades difíceis que fazem uma diferença incrível para esses alunos. Tivemos este ano, um professor de história que mobilizou uma escola inteira para desenvolver projetos de ciências. Ele não tem conhecimento na área, mas teve vontade e liderança. E, principalmente, acreditou nas crianças.
Fonte: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2016/04/roseli-de-deus-lopes-crianca-nasce-cientista-e-escola-que-silencia.html