CONHEÇA MEU BLOG PAPO DE PROFESSOR...TE ESPERO LÁ!!!!
http:papodeprofessor.blogspot.com

Também estamos no Face book : "professores mediadores conectados" e " papo de professor"

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Roseli de Deus Lopes: “A criança nasce cientista. É a escola que a silencia”

A engenheira da Universidade de São Paulo, idealizadora de uma das maiores feiras de ciências do país, diz que falta de infraestrutura ou de professores com formação específica não é impeditivo para o ensino do método científico aos alunos


FLÁVIA YURI OSHIMA
05/04/2016 - 08h00 - Atualizado 05/04/2016 11h53

A criança faz as perguntas certas.  A gente é que desaprende a enxergar isso”, diz  Roseli de Deus Lopes, engenheira e professora da escola Politécnica da Universidade de São Paulo, no departamento de sistemas eletrônicos.  Roseli foi a idealizadora da Feira Brasileira de Ciencias e Engenharia, a Febrace, que este ano completou 14 anos. O evento reúne projetos de alunos de escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio de todo o país. Uma vez por ano, esses projetos são exibidos e explicados durante três dias na USP para um público que reúne universidades, empresários e outros alunos. Os projetos apresentados na feira (gratuita) já rodaram o mundo, ganharam prêmio e mudaram a trajetória de alunos, professores e comunidades inteiras. Na entrevista a seguir, a professora Roseli de Deus Lopes defende que não é preciso dinheiro nem recursos supermodernos para o (bom) ensino de ciências, computação e matemática. Vontade é o material necessário, diz ela. A professor defende, entre outros pontos, que mesmo professores com formação deficitária fazem a diferença quando se envolvem com as ideias das crianças.
Roseli Lopes, professora do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da USP (Foto: Divulgação)




















ÉPOCA - Como surgiu a ideia de montar uma feira de ciências?
Roseli de Deus Lopes - Há 15 anos, percebemos que para estimular jovens a irem para a universidade, precisaríamos atuar na educação básica. Eles não sabem que são supercriativos e que têm esse potencial todo para ser mostrado aqui. Fizemos uma pesquisa e identificamos que mesmo as escolas que faziam os melhores trabalhos em ciências tinham uma questão: os trabalhos nessas escolas eram muito mais de reprodução. O professor mostrava uma tecnologia e o aluno montava alguma coisa muito parecida com aquilo só para ilustrar. Não era um movimento em que se tenta buscar os problemas e uma solução para eles. Era o oposto. Eles buscavam problemas que fizessem sentido para aquela tecnologia que já estava desenvolvida. Então, era um raciocínio às avessas, de colônia mesmo. A receita já vem de outro lugar, você monta e ensina as pessoas a usarem. A gente percebeu que o problema era anterior a esse. Não era uma questão de aprender a usar a tecnologia, mas, sim, o de provocar um olhar mais observador por parte do aluno para que ele identifique os problemas e aí o uso das tecnologias vem mais naturalmente. Partir do problema é um jeito de fazer as disciplinas da escola fazerem sentido na vida. Para que eu vou querer biologia? Não é só para passar numa prova, ou num vestibular. Eu tenho de perceber o valor que aquilo tem para a minha vida.
ÉPOCA - Esse foi o critério para selecionar os trabalhos que poderiam participar da feira?
Roseli - Sim. O objetivo da Febrace não era ser grande, mas, sim, ser representativa. Queríamos ver o que está acontecendo nas escolas públicas e privadas deste país afora. Começamos a desenvolver uma série de materiais e de ações para estimular as escolas a adotar esse tipo de trabalho e a realizar pequenas feiras internas para estimular esse ambiente. As feiras de projetos são importantes porque são um espaço de troca. A gente aprende observando o que o outro está fazendo.Criamos um curso online que mostra o que é fazer um projeto, e o que é o método da pesquisa tecnológica. É um curso que indicamos tanto para os professores quanto para os alunos. Preparamos os cursos online colhendo materiais nas feiras. Então, nesse curso online, há exemplos de pessoas que fizeram projetos em diferentes situações. Adotamos uma linguagem simples e bem voltada para a prática. Nossa preocupação é que ele vá colocando em prática de acordo com a complexidade que cada faixa etária permite, ao invés de ele se aprofundar demais na teoria e perder o fio da meada na prática.
ÉPOCA - O alvo são as crianças de qual idade?
Roseli - Nós fizemos o curso numa linguagem simples que mesmo crianças já alfabetizadas a partir do fundamental I (6 anos de idade)já acompanhem. A ideia é que o professor faça o curso primeiro e ele mostre o mesmo material para orientar os alunos. O papel principal do professor é em relação às questões de segurança e de ética na pesquisa. A criança é tão curiosa e tão criativa que às vezes propõe ações e formas de investigar as hipóteses que formulam que podem colocá-la em risco físico ou em risco emocional. Imagine se ela elabora um questionário que possa colocá-la em situações constrangedoras. A ideia é que o aluno faça um plano de ação e procure um professor ou um outro adulto que possa orientá-lo e que avalie se as perguntas e as suposições estão bem formuladas, ou se os materiais que eles teriam de usar estão disponíveis na escola e se apresentam algum risco na manipulação. Como eles têm de viajar, nos concentramos na faixa etária de 13 a 20 anos. Mas, incentivamos que nas escolas e nos municípios, eles trabalhem com todas as faixas etárias. A criança nasce cientista, nasce engenheiro e tecnologista e a escola ruim é que o cala. Ela mata a curiosidade, mata a capacidade de a criança observar.
ÉPOCA - Como as crianças vêm parar aqui? Vocês vão até eles ou é um movimento que parte da escola ou do aluno?
Roseli - Hoje temos uma rede diversa. Ao longo desses anos, fomos credenciando feiras. Metade dos alunos vem por submissão direta e a outra metade vem através de outras feiras. Pelo ambiente virtual mantemos o contato e o estimulo às escolas e aos alunos que se interessam em participar. Então, quando o aluno traz alguma questão que o professor não consegue resolver, ele recorre à comunidade Febrace para buscar o apoio de alguém. A gente também recomenda que ele busque em sua própria comunidade esse apoio: na universidade da cidade ou na escola técnica que pode ter peritos naquele assunto. A ideia é que as escolas peçam inclusive ajuda para usar a estrutura da universidade para seus testes de hipótese.
Há situações, ainda, que o movimento parte totalmente do aluno. Se ele quer participar e não consegue o suporte da escola (sim, existe isso), ele procura ajuda fora para montar o seu projeto. Numa edição da feira, demos um microscópio como prêmio para um determinado projeto. Avisamos que o aparelho não era para as crianças, mas, sim, para a escola. Quando chegou o final, muito delicadamente, as crianças me chamaram para dizer que tentaram uma professora na escola, mas não encontraram ninguém que quisesse ajudá-las, nem mesmo a direção da escola. Então, pediram ajuda para uma vizinha que estava começando a fazer engenharia em Maringá, no Paraná. Por isso, eles não queriam levar o prêmio para a escola porque achavam que a diretora trancaria o aparelho no depósito e desdenharia do prêmio. Eu os convenci que esse seria mais um motivo para eles levarem o prêmio para a escola, para mostrar do que foram capazes e de como era importante dar apoio aos alunos.
ÉPOCA - Qual é a resposta hoje de quando as escolas e alunos pedem ajuda nas universidades?
Roseli - Há 14 anos, eu diria que era difícil receber esse retorno. Mas com o tempo, conseguimos trazer mais visibilidade para os projetos com ações conjuntas com o ministério de educação, com as universidades e as agências de fomento. Hoje, as universidades não estranham mais quando recebem pedidos da garotada. Há dois anos, foi criada uma bolsa de iniciação científica júnior e isso facilitou muito. Muitas universidades hoje têm programas de pré-iniciação. Esse processo de valorizar as iniciativas dos alunos da educação básica tem rolado. 
 
ÉPOCA - De quanto é essa bolsa para alunos da educação básica?
Roseli - É de R$ 1 200 no total. O valor pode parecer pequeno, mas para alguns essa é justamente a verba que falta para ele poder comprar alguma coisa para o projeto ou para ele poder se deslocar até a universidade. O mais importante é o valor simbólico dessa bolsa porque ele abre a porta dos centros universitários, dos centros de pesquisa. Antes, o orientador tinha medo de ter o aluno no laboratório. Agora, com a bolsa, ele tem também um seguro para a pesquisa. Antes tínhamos muitas situações informais. Hoje conseguimos ter situações formais de pesquisa com crianças e adolescentes. 
ÉPOCA - Vocês já conseguiram acompanhar o destino das crianças que passam pela experiência científica?
Roseli - Estamos fazendo pesquisas com alunos e professores que participaram de feiras e também alunos que submeteram seus trabalhos mas que não foram aprovados para participar da feira. O que aconteceu com essa criança, como ficou o envolvimento dela com a pesquisa? Os resultados são animadores. Eles nos relatam que aprenderam a desenvolver um trabalho seguindo o rigor científico, a respeitar todas as etapas, a melhorar a pesquisa, a apresentá-la. Com as crianças que participaram das feiras, as mudanças são ainda maiores. Eu mesmo me surpreendo. Tem menino que eu vi no primeiro dia de feira e voltei a falar com ele no terceiro dia e ele parece outra pessoa. Eles se desenvolvem muito depressa! O fato de serem estimulados a conversar com pessoas diferentes sofistica o discurso deles. Eles têm de treinar falar com um avaliador que ficará mais tempo e com um jornalista que ficará 10 minutos com eles. Eles estão conseguindo desenvolver essa capacidade de raciocínio, de pescar o que é mais importante de acordo com o tempo e público. 
ÉPOCA - Além da comunicação, que é superimportante, que outros aspectos essas crianças e adolescentes desenvolvem?
Roseli - Muitos. Inclusive lançaremos um série inspiradores, contando algumas histórias. Alguns dos alunos que passaram por aqui estão começando o doutorado, outros criaram suas empresas. Uma das alunas que mais me encanta participou de uma das primeiras feiras.Ela tinha medo de ir ao Butantã. Mas o instituto  foi até a escola pública buscar esses alunos. Ela disse que não queria ir aos laboratórios porque tinha medo dos bichos. O orientador do Butantã, que já tem muita experiência com crianças, soube se aproximar e explorar esses receios dela, tranformando-os em curiosidade. Ela queria saber porque o escorpião estava há tanto tempo na Terra. Ela não era um aluna nota dez. Mas motivada por essa pergunta, desenvolveu um trabalho belíssimo. Passou por uma rodada estadual, nacional e participou de duas feiras internacionais. Essa menina entrou em biologia e ela é absolutamente apaixonada pela área – e ela não era antes. Agora quer fazer medicina porque descobriu a motivação da vida dela. Ela investigou o veneno do escorpião para descobrir formas de usar as propriedades do veneno para curar as pessoas. Já fez estágio no Butantã, no InCor (Instituto do Coração), sendo que no InCor ela conseguiu o estágio com o contato de uma pessoa que viu o trabalho dela aqui na feira. Então, essa rede de contatos tem de ser estimulada. Esse é um investimento que só pode dar certo. É importante falar também dos professores. Motivados pelos alunos, eles passaram a investir mais em suas carreiras. Muitos desses professores estão voltando para fazer pesquisa em educação em suas áreas. Muitos estão voltando a fazer mestrado e especializações.
ÉPOCA - Há muita diferença entre a escola pública e a privada?
Roseli - Essa é uma boa pergunta porque me dá a oportunidade dedesmistificar um pouco o ensino das ciências e da tecnologia. Aqui a gente tem escolas que ficam no interior do Maranhão, que não têm estrutura, mas que têm o essencial, que é alguém que tem  vontade e que acredita que pode fazer a diferença. São alunos e professores que aprendem a fazer perguntas qualificadas.
ÉPOCA - O que é preciso ter na educação básica para fazer da pesquisa uma cultura?
Roseli -
 A principal coisa é acreditar que dá para mudar, que dá pra fazer ciência em qualquer circunstância. Quando vemos um vídeo com todos esses sotaques diferentes criando e tocando seus projetos, vemos que tudo é possível. Temos histórias de crianças pequenas que geraram impacto em suas comunidades e criaram soluções sem nenhuma infraestrutura.
No interior do Ceará, havia um problema com a pesca do camarão numa comunidade ribeirinha. A pesca estava acabando também com os camarões filhotes. Isso colocava a oferta de  camarões em risco de extinção e também diminuía a rentabilidade dos pescadores. Os camarões pequenos pesam menos. A aluna que participou da Febrace estava triste porque ela teria de mudar para outra local se a pesca acabasse. Então, ela quis fazer um projeto que buscasse uma solução para esse problema. Ela projetou uma armadilha de camarões com uma rede de espaçamento maior para liberar os camarões pequenos. E ela também mudou a amarração. Antes era usado plástico, e os peixes estavam comendo plástico e morrendo. Com o material que ela usou, que é biodegradável e se desfaz rapidamente, ela também solucionou esse problema. O pai não queria que ela o  testasse. Daí ela foi pescar com a armadilha escondida dele. Ele então percebeu que a armadilha pegava uma quantidade menor de camarões, mas eles eram maiores, então ele carregava menos peso e conseguia ganhar o mesmo dinheiro. Ela conseguiu convencer a comunidade inteira. Com a ajuda do professor orientador, ela conseguiu um contato com o Sebrae para criar uma empresa e replicar a solução. Crianças que passam por experiências como essas passam a acreditar que podem fazer qualquer cosiaÉ uma questão econômica, porque estamos fomentando futuros empreendedores. E é social porque a questão do desenvolvimento social só será equacionada se cada um acreditar que pode mudar a sua comunidade. 
ÉPOCA - A baixa qualidade da formação dos professores é um impedimento para esse tipo de programa?
Roseli - Temos de ser realistas. Se eles tivessem uma formação melhor, seria mais fácil. Mas temos de trabalhar com o professor que está na escola. Quando  quer, ele faz diferença. Temos exemplos de professores com formação muito precária e em realidades difíceis que fazem uma diferença incrível para esses alunos. Tivemos este ano, um professor de história que mobilizou uma escola inteira para desenvolver projetos de ciências. Ele não tem conhecimento na área, mas teve vontade e liderança. E, principalmente, acreditou nas crianças.
Fonte: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2016/04/roseli-de-deus-lopes-crianca-nasce-cientista-e-escola-que-silencia.html

terça-feira, 5 de abril de 2016

Como lidar com brincadeiras que machucam a alma

Sabe aqueles apelidos e comentários maldosos que circulam entre os alunos?

Consideradas "coisas de estudante", essas maneiras de ridicularizar os colegas podem deixar marcas dolorosas e por vezes trágicas.

Veja como acabar com o problema na sua escola e, assim, tirar um peso das costas da garotada

Meire Cavalcante (novaescola@fvc.org.br)

A criançada entra na sala eufórica. Você se acomoda na mesa enquanto espera que os alunos se sentem, retirem o material da mochila e se acalmem para a aula começar.
Nesse meio tempo, um deles grita bem alto:
"Ô, cabeção, passa o livro!" 
O outro responde: "Peraí, espinha". 
Em outro canto da sala, um garoto dá um tapinha, "de leve", na nuca do colega.
A menina toda produzida logo pela manhã ouve o cumprimento: "Fala, metida!" 
Ao lado dela, bem quietinha, outra garota escuta lá do fundo da sala: "Abre a boca, zumbi!" 
E a classe cai na risada.
O ambiente parece normal para você?
Então leia esta reportagem com atenção.

O nome dado a essas brincadeiras de mau gosto, disfarçadas por um duvidoso senso de humor, é bullying.

O termo ainda não tem uma denominação em português, mas é usado quando crianças e adolescentes recebem apelidos que os ridicularizam e sofrem humilhações, ameaças, intimidação, roubo e agressão moral e física por parte dos colegas.

Entre as conseqüências estão o isolamento e a queda do rendimento escolar.

Em alguns casos extremos, o bullying pode afetar o estado emocional do jovem de tal maneira que ele opte por soluções trágicas, como o suicídio.


Pesquisa realizada em 11 escolas cariocas pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia), no Rio de Janeiro, revelou que 60,2% dos casos acontecem em sala de aula. Daí a importância da sua intervenção. Mudar a cultura perversa da humilhação e da perseguição na escola está ao seu alcance. Para isso, é preciso identificar o bullying e saber como evitá-lo. 




Um perigo para a escola 

Em janeiro do ano passado, Edmar Aparecido Freitas, de 18 anos, entrou no colégio onde tinha estudado, em Taiúva (SP), e feriu oito pessoas com disparos de um revólver calibre 38. 
Em seguida, se matou.

Obeso, ele havia passado a vida escolar sendo vítima de apelidos humilhantes e alvo de gargalhadas e sussurros pelos corredores. 

Atitude semelhante tiveram dois adolescentes norte-americanos na escola de Ensino Médio Columbine, no Colorado (EUA), em abril de 1999.
Após matar 13 pessoas e deixar dezenas de feridos, eles também cometeram suicídio quando se viram cercados pela polícia. 
Assim como o garoto brasileiro, os jovens americanos eram ridicularizados pelos colegas. 

Os exemplos de Edmar e dos garotos de Columbine, que tiveram reações extremadas, são um alerta para os educadores. "Os meninos não quiseram atingir esse ou aquele estudante. O objetivo deles era matar a escola em que viveram momentos de profunda infelicidade e onde todos foram omissos ao seu sofrimento", analisa o pediatra Aramis Lopes Neto, coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes, desenvolvido pela Abrapia.

Quem pratica e quem sofre 




No filme norte-americano Bang Bang! Você Morreu, Trevor, o protagonista, é vítima de bullying. Para revidar, ameaça os que o perseguem com uma bomba de mentira. Diferentes dele são os que sofrem em silêncio e enfrentam com medo e vergonha o desafio de ir à escola.
Em vez de reagir ou procurar ajuda, se isolam, ficam deprimidos, querem abandonar os estudos, não se acham bons para integrar o grupo, apresentam baixo rendimento e evitam falar sobre o problema.

"Quem mais sofre é quem menos fala. Esses passam despercebidos pelo professor", alerta a psicóloga Carolina Lisboa, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Centro Universitário Feevale (RS). "Tinha vontade de ficar sozinha. Não queria ser notada", diz Vanessa Brandão Greco, da 7ª série da Escola Municipal de Ensino Fundamental Thomas Mann, no Rio de Janeiro. Ela recebia apelidos humilhantes por causa dos cabelos crespos.

Mesmo quem adere à brincadeira se sente diminuído pelos comentários dos colegas. Mas, para se defender, entra no jogo — o que dá uma falsa impressão de que não se ressente. "Eu ridicularizava os outros porque, se não fizesse isso, o alvo seria eu", conta Leandro Souza Gomes Santos, da 8ª série.

Vanessa e Leandro tiveram mais sorte que Trevor, o personagem do filme, já que a escola deles se engajou há dois anos no programa de combate ao bullying promovido pela Abrapia. "Nós não toleramos isso porque todos sentiram na pele como é melhor estar em um ambiente de respeito", afirma a diretora Maria das Graças Caldas Freire. É verdade. Pelos corredores, a garotada toda sabe, na ponta da língua, o que é bullying e por que evitá-lo. Nas áreas em que o professor não está presente, há alunos voluntários. Eles observam a movimentação e quando identificam o problema dialogam com o colega. "Pergunto: e se fosse com você?", explica Karol de Castro Façanha, da 7ª série, um dos 30 voluntários da escola.
Foto: Renata Xavier"Eu vivia calada, não gostava de vir à escola e evitava certas pessoas para não ouvir piadinhas sobre o meu cabelo. Hoje eu adoro estar aqui"
Vanessa Brandão Greco, 7ª série
"Faziam piadas porque sou alta e achava isso ruim em mim. Descobri que por causa da minha altura posso jogar basquete"
Thaiane Conceição Dutra, 7ª série
"Me azucrinavam porque eu sou baixinha. Mas quem disse que isso é ruim? A Daiane dos Santos consegue dar aqueles saltos maravilhosos porque é baixinha que nem eu"
Daiany Andrade Silva, 7ª série




"Quando cheguei aqui, meus colegas me explicaram o que era bullying. Achei muito legal. Aprendi a não incomodar alguém que não merece"
Hugo Vinícius de Souza Lins, 5ª série


Ações da turma

 melhoram o ambiente 




Para se adequar a um local hostil, os jovens acabam adotando um comportamento diferente do que seria natural para eles. "O Leandro era um agitador. Só tirava notas baixas e era difícil lidar com ele", lembra a professora de Geografia Rosana Mendes Ferreira. Ela notou que o programa adotado pela escola foi decisivo para o progresso do garoto, hoje com notas altas em diversas disciplinas. "E ainda nem cheguei aonde quero", ele afirma, confiante. Já Vanessa deixou de lado a timidez. "Hoje eu acho que falo até demais", confessa aos risos. 

Como o bullying ainda é tratado como um fenômeno natural, pouquíssimas escolas conhecem e combatem o problema. Hugo Vinícius de Souza Lins está na 5ª série. Ele entrou na Thomas Mann este ano e conta que na escola onde estudava antes nunca tinha ouvido falar no assunto. "Lá me davam apelidos e, apesar de não gostar, fazia a mesma coisa. Aqui parei com isso, porque acho errado incomodar quem não merece." Os alunos são orientados a ser receptivos e a integrar quem acaba de chegar explicando que ali não se tolera o bullying. Isso evita o isolamento e o pré-julgamento do novato, que aprende a procurar ajuda. 

As turmas já estão até organizando uma peça de teatro sobre o tema, que será apresentada para os pais e a comunidade. 

Os professores sugerem dinâmicas entre os adolescentes, estimulando o bom relacionamento, além de aplicar atividades que envolvam a questão. "Lendo as redações que eles produzem, consigo identificar o que sentem e se passam por algum problema", diz a professora de Língua Portuguesa Maria Pamphiro Veloso. 

Segundo o pediatra Aramis Lopes Neto, os estudantes que participaram das pesquisas não tiveram muita dificuldade em identificar o problema na escola. "Só o nome era novo", diz. "Deparei com histórias tristes, de crianças e jovens que sofriam calados todo tipo de agressão", comenta. 
No programa da Abrapia, os professores foram orientados a, primeiramente, promover a conscientização das turmas sobre o bullying. "Se não fizermos isso, todos vão continuar com o que, para eles, é apenas uma brincadeira", explica a diretora Maria das Graças. 

Na Thomas Mann, todos os casos vão parar na direção. E não é terrorismo, não. Na sala da diretora, a garotada entra e sai à vontade, mostrando confiança e desembaraço. Ir para a direção, lá, não significa uma punição. "Converso com todos os alunos e promovo o entendimento, o respeito", diz Maria das Graças.

Nas reuniões pedagógicas, o assunto surge naturalmente, e os docentes contam como lidaram com os incidentes ocorridos em classe e discutem atividades feitas pelas turmas. 

Cada professor busca em sua disciplina um gancho para trabalhar o tema. Assim, a professora de Artes monta os cartazes da campanha contra o bullying, que são dispostos nas paredes da escola. Em História, é trabalhada a questão do negro e do racismo no Brasil, que também é um dos motivos do fenômeno. Já a Geografia estuda os fatores políticos e econômicos que traçam os caminhos da desigualdade no Brasil. 

Os professores observam o comportamento da turma e fazem perguntas para identificar possíveis vítimas e autores. Ao surgir uma situação em sala, a intervenção é imediata. Interrompe-se a aula para colocar o assunto em discussão e relembrar os combinados. "Se algo ocorre e o professor se omite ou até mesmo dá uma risadinha por causa de uma piada ou de um comentário, vai pelo caminho errado. Ele deve ser o primeiro a mostrar respeito e dar o exemplo", diz Aramis.




As meninas são mais discretas



O bullying também pode ser praticado por meios eletrônicos. Mensagens difamatórias ou ameaçadoras circulam por e-mails, sites, blogs (os diários virtuais), pagers e celulares. É quase uma extensão do que dizem e fazem na escola, mas com o agravante de que a vítima não está cara a cara com o agressor, o que aumenta a crueldade dos comentários e das ameaças. Quando a agressão está num mundo virtual, o melhor remédio é, mais uma vez, a conversa. Se crianças e adolescentes confiam nos adultos que os cercam, podem contar sobre o bullying sem medo de represálias, uma vez que terão a certeza de encontrar ajuda. 

De modo geral, entre os meninos é mais fácil identificar um possível autor de bullying, pois suas ações são mais expansivas e agressivas. Eles chutam, gritam, empurram, batem. São os fortões, os temíveis. Já no universo feminino, o problema se apresenta de forma mais velada. As manifestações entre elas podem ser fofoquinhas, boatos, olhares, sussurros, exclusão. "As garotas raramente dizem por que fazem isso. Quem sofre não sabe o motivo e se sente culpada", explica a pesquisadora norte-americana Rachel Simmons, especialista em bullying feminino.

Ela conta que as meninas agem dessa forma porque espera-se que sejam boazinhas, dóceis e sempre passivas. Para demonstrar qualquer sentimento contrário, elas utilizam meios mais discretos, mas não menos prejudiciais. "É preciso reconhecer que as garotas também sentem raiva. A agressividade é natural no ser humano, mas elas são forçadas a encontrar outros meios — além dos físicos — para se expressar", diz Rachel. 

Sejam meninos, meninas, crianças ou adolescentes, é preciso evitar o sofrimento dos estudantes. A pesquisa da Abrapia revela que 41,6% das vítimas nunca procuraram ajuda ou falaram sobre o problema, nem mesmo com os colegas. "Às vezes, quando o aluno resolve conversar, não recebe a atenção necessária, pois a escola não acha o problema grave e deixa passar", alerta Aramis.


No caso daqueles que recorrem à família, a ajuda também não é eficaz. Se os pais reclamam, a direção e os professores tomam medidas pontuais, sem desenvolver um trabalho generalizado, permitindo que o problema se repita. "A escola não deve ser apenas um local de ensino formal mas também de formação cidadã, de direitos e deveres, amizade, cooperação e solidariedade. Agir contra o bullying é uma forma barata e eficiente de diminuir a violência entre estudantes e na sociedade", conclui o pediatra.Como inibir o bullying 


- Para um ambiente saudável na escola, é fundamental: 

- Esclarecer o que é bullying. 

  -Avisar que a prática não é tolerada. 

- Conversar com os alunos e escutar atentamente reclamações ou sugestões. 

- Estimular os estudantes a informar os casos. 

- Reconhecer e valorizar as atitudes da garotada no combate ao problema. 

- Identificar possíveis agressores e vítimas. 

- Acompanhar o desenvolvimento de cada um. 

- Criar com os estudantes regras de disciplina para a classe em coerência com o regimento escolar. 

- Estimular lideranças positivas entre os alunos, prevenindo futuros casos. 

- Interferir diretamente nos grupos, o quanto antes, para quebrar a dinâmica de bullying. 

- Prestar atenção nos mais tímidos e calados.  Geralmente as vítimas se retraem. 
Fonte: Abrapia


Por que um nome em inglês? 


O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão.
Como verbo, significa ameaçar, amedrontar, tiranizar, oprimir, intimidar, maltratar.
O primeiro a relacionar a palavra ao fenômeno foi Dan Olweus, professor da Universidade da Noruega.
Ao pesquisar as tendências suicidas entre adolescentes, Olweus descobriu que a maioria desses jovens tinha sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, bullying era um mal a combater.
Ainda não existe termo equivalente em português, mas alguns psicólogos estudiosos do assunto o denominam "violência moral", "vitimização" ou "maltrato entre pares", uma vez que se trata de um fenômeno de grupo em que a agressão acontece entre iguais — no caso, estudantes.
 Como é um assunto estudado há pouco tempo (as primeiras pesquisas são da década de 1990), cada país ainda tem de encontrar uma palavra, em sua própria língua, que tenha esse significado tão amplo.


  • Quer saber mais?





Escola Municipal de Ensino Fundamental Thomas Mann, R. Ferreira de Andrade, 195, 20780-200, Rio de Janeiro, RJ, tel. (21) 2501-9430

Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia), R. Fonseca Teles, 121, 2o andar, 20940-200, Rio de Janeiro, RJ, tel. (21) 2589-5656

BIBLIOGRAFIA
Garota Fora do Jogo: A Cultura Oculta da Agressão nas Meninas
, Rachel Simmons, 336 págs., Ed. Rocco, tel. 0800-216789, 40 reais

Bullying: como combatê-lo, Alessandro Costantini, 218 págs, Ed. Itália Nova, tel. (11) 3257-0220 , 32 reais

FILMOGRAFIA
Bang Bang!
Você Morreu (Bang Bang! Youre Dead), EUA, 2001, 93 min, direção Guy Ferland, Paramount Home Entertainment, tel. 0800-169300

Elefante (Elephant), EUA, 2003, 81 min., direção Gus van Sant, Warner Bros., tel. (11) 3016-2900

Tiros em Columbine (Bowling for Columbine), EUA, 2002, 123 min, direção Michael Moore, Alpha Filmes, tel. (11) 4191-6898

INTERNET
Em www.bullying.com.br você conhece as ações contra o bullying da Abrapia
Confira no site www.bullying.org materiais de apoio no combate ao bullying (em inglês)



Fonte http://revistaescola.abril.com.br/formacao/como-lidar-brincadeiras-431324.shtml?page=4



Google imagens



A Triste Sina Dos Filhos Abandonados Dentro Da Própria Casa


Encontrar filhos abandonados emocionalmente pelas famílias é uma dura realidade. Hoje, vivemos um tempo de grande transformação nos relacionamentos sociais. Em pouco tempo, evoluímos enormemente nas possibilidades de comunicação pessoal a distância. Eu, por exemplo, peguei a época em que só existia telefone fixo (com fio) e “orelhões” de rua (sem celular ou internet), e a comunicação escrita era feita por carta. Na minha adolescência, passei muitas horas (todos os dias!) brincando e conversando na rua com os amigos, e em casa com a família. Quando alguém estava presencialmente com outra pessoa, havia muito pouca distração. Tínhamos de investir no relacionamento “ao vivo”, demonstrar sentimentos, conquistar a simpatia dos outros. Mas os tempos mudaram e estima-se que o brasileiro passa, aproximadamente, de três a quatro horas por dia conectado, interagindo via internet, o que reduz muito sua convivência física com amigos e familiares.

Estamos esquecendo como amar

Fico impressionada quando vejo o desenvolvimento de formas de demonstrar emoções via internet (desenhos, “se sentindo…”, carinhas de todos os tipos). As pessoas estão se tornando ótimas no marketing emocional externo, mas estão esquecendo como amar, como fazer carinho físico, como olhar nos olhos e dar atenção a quem está perto. Será que isso não é reflexo da dificuldade de nos abrirmos aos laços emocionais reais e fortes na nossa intimidade?

Medo de expor traumas e fraquezas

Será que não é medo de expor nossos traumas e fraquezas? Digo isso, porque, apesar da internet ser um meio real de conhecimento pessoal e uma forma de diálogo, há um fator limitante que tendência essa experiência a ser uma ilusão: eu mostro somente o que quero mostrar. Já no convívio concreto, não tenho tanto o domínio sobre a exposição, porque meus gestos, minha entonação de voz, a linguagem corporal, a resposta imediata frente aos estímulos e minhas atitudes reais tornam-me muito mais vulnerável a ser realmente conhecido de maneira mais completa, inclusive naquilo que ainda não está bem equilibrado em mim.

Consequências da ausência dos pais

Claro que essa desconexão dos relacionamentos concretos é um problema. Ele se torna muito mais grave (e com fortes repercussões) quando a conexão enfraquecida é o laço familiar com uma criança ou adolescente. A criança nasce completamente dependente da atenção dos pais. À medida que vai crescendo, vai aprendendo a ter autonomia e tornando-se mais independente. Porém, a atenção real dos pais é indispensável para o saudável desenvolvimento emocional dos filhos. Vários estudos mostram que as consequências da ausência dos pais são graves e podem causar agressividade, tristeza, desenvolvimento de tiques e problemas na escola.
Presentes e ausentes ao mesmo tempo
A questão que quero levantar é que, hoje, muitos pais estão presentes e ausentes ao mesmo tempo. Em corpo estão ali, mas envolvidos com outras coisas. A criança se sente ignorada emocionalmente. Celular, Ipad, notebook, TV… Corpo presente, mente e atenção em outro lugar, com outro foco. Essa falta de atenção gera o sentimento de não ser importante, de não ser amado, de não ser suficiente para atrair a mãe e pai. Os filhos precisam sentir que há envolvimento dos pais, que eles sentem prazer em estar em sua companhia, que estão se divertindo ao brincar com eles. O contato físico e o carinho representam estabilidade e segurança para que eles aprendam o que é um relacionamento afetivo.

Degraus do amadurecimento humano

Sei que a vida é corrida, por isso mesmo é preciso que o tempo designado para estar com os filhos seja de grande qualidade. São preferíveis trinta minutos de exclusividade do que mais tempo ao lado deles, porém fazendo uso das redes sociais. Um dos grandes degraus do amadurecimento humano é aprender a dar importância ao que é importante. Sei que seus filhos e sua família são importantes para você; então, simplesmente esteja ali, de verdade, por inteiro onde estiver. O amor de Deus age por meio de nós, para nos ensinar novas formas de demonstrar o que nós sempre sentimos, o amor que temos aos que nos são preciosos. Você vai se surpreender com a resposta dos seus filhos ao se conectarem com você de verdade.
“Tudo o que o inferno representa está contido na palavra ‘abandono'”. Clara Dawn
Fonte :  http://www.portalraizes.com/a-triste-sina-dos-filhos-abandonados-dentro-da-propria-casa/
TEXTO ORIGINAL DE CANÇÃO NOVA

domingo, 17 de janeiro de 2016

Entendendo a Síndrome de Asperger

Criança com as mãos na boca, parecendo chateada, Crianças com dificuldade de sociabilização, linguagem rebuscada para a idade, atos motores repetitivos (tiques) e interesses muito intensos e limitados apenas por um ou poucos assuntos podem ser portadoras da síndrome de Asperger, transtorno do desenvolvimento que afeta principalmente indivíduos do sexo masculino. Suas causas são desconhecidas, mas, como se trata de um distúrbio congênito, há estudos em andamento que procuram estabelecer a relação com alguma desordem genética.

O primeiro trabalho sobre a síndrome foi feito pelo psiquiatra e pediatra austríacoHans Asperger, mas permaneceu praticamente desconhecido. O reconhecimento internacional ocorreu somente em 1994, quando foi incluída pela primeira vez no DSM(Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), o manual de diagnóstico e estatísticas de transtornos mentais, organizado pela Associação Americana de Psiquiatria. Por se tratar de uma patologia recentemente descrita, não existem dados confiáveis sobre a incidência.

A partir de 2013, a síndrome de Asperger deixa de ter essa denominação e passa a ser classificada no DSM como uma forma branda de autismo,denominada como Transtorno do Espectro Autista (TEA)  – uma recomendação que deverá ser mundialmente adotada. Diferentemente do autismo clássico, porém, quem tem Asperger não apresenta comprometimento intelectual e retardo cognitivo. Por isso os primeiros sinais e sintomas do distúrbio costumam ser ignorados pelos pais, que os atribuem a características da personalidade da criança.

"Muitos portadores da síndrome possuem, inclusive, QI acima dos índices normais. E o fato de terem habilidade verbal muito desenvolvida, com um vocabulário amplo, diversificado e rebuscado, reforça nos pais a ideia de que seus filhos são superdotados", diz Walkiria Boschetti, neuropsicóloga do Einstein. O foco exagerado sobre um assunto específico – como automóveis, aviões ou robôs, por exemplo – é outro sintoma característico da síndrome interpretado de forma inadequada pelos pais e familiares, que acabam incentivando a restrição de interesses dessas crianças, oferecendo apenas presentes relacionados ao tema.

Diagnóstico
Os sinais e sintomas da síndrome de Asperger podem aparecer nos primeiros anos de vida da criança, mas raramente são valorizados pelos pais como algo negativo, especialmente se as manifestações forem leves. A grande maioria dos diagnósticos da síndrome de Asperger é feita a partir da fase escolar, quando a dificuldade de socialização, considerada a característica mais significativa do distúrbio, manifesta-se com maior intensidade, juntamente com o desinteresse por tudo que não se relacione com o hiperfoco de atenção. "O que efetivamente chama a atenção dos pais são os sintomas associados ao isolamento social, inadequação de comportamentos ou manifestações de ansiedade, depressão ou irritabilidade", diz Sandra Lie Ribeiro do Valle, neuropsicóloga do hospital.

Usualmente, os primeiros relatos sobre os problemas observados são feitos ao pediatra, que poderá encaminhar a criança aos médicos especialistas para uma avaliação mais profunda e detalhada. Não existem exames laboratoriais ou de imagem destinados à confirmação do diagnóstico. "Hoje, o principal instrumento para essa finalidade são os testes aplicados por neuropsicólogos, que por meio de tarefas propostas à criança observam e avaliam aspectos cognitivos e comportamentais, como memória, atenção e habilidades sociais", diz o Dr. Fabio Sato, psiquiatra da infância e adolescência da Clínica de Especialidades Pediátricas do Einstein, instituição que aplica um extenso e detalhado protocolo para diagnóstico e tratamento dessa patologia. Segundo ele, o Brasil ainda carece de uma padronização na abordagem diagnóstica dessa patologia, uma vez que ferramentas como a AD (questionário utilizado em entrevistas com os pais) e a ADOS (questionário para entrevistas com as crianças) ainda não foram validadas aqui, embora o uso já esteja consagrado nos Estados Unidos e na Europa.


Quem tem síndrome de Asperger tende a apresentar alterações nos testes de avaliação de reconhecimento de emoções e nos que analisam a capacidade de inferir o que os outros estão pensando. "São pessoas que têm extrema dificuldade em entender o que pensam e sentem aqueles que os cercam, a menos que essas emoções sejam explicitamente demonstradas e explicadas a eles. Também são inflexíveis, por isso prendem-se a regras e não conseguem agir com flexibilidade, conforme cada situação", explica Sandra Lie Ribeiro do Valle.



Tratamento multidisciplinar
São envolvidos médicos, neuropsicólogos, psicopedagogos e fonoaudiólogos, uma vez que os indivíduos possuem alterações na fala (erros de prosódia, por exemplo, quando o indivíduo faz a transposição do acento tônico de uma sílaba para outra). "Basicamente, a terapia se baseia em transmitir as habilidades e recursos para as manifestações características, em especial a dificuldade no convívio social. Ele deve ser feita a longo prazo, já que se trata de um distúrbio crônico", explica Walkiria Boschetti. Medicamentos são utilizados apenas para tratar sintomas decorrentes dessas manifestações, como ansiedade, depressão e irritabilidade.

Quem tem Asperger e chega à vida adulta sem diagnóstico ou tratamento adequados pode enfrentar sérias dificuldades de relacionamento na vida pessoal, escolar e profissional. "Além disso, trata-se de um risco para o desenvolvimento de outros problemas, como o transtorno bipolar", adverte o Dr. Fabio Sato. Portanto, quanto mais precoces e precisos forem o diagnóstico e o tratamento, maiores serão as chances de a criança com Asperger desenvolver comportamentos mais saudáveis, tornando-se mais sociáveis, flexíveis e independentes.

Como lidar?
A criança com Síndrome de Asperger pode apresentar talentos específicos. “De uma maneira geral, os pais costumam incentivar uma aptidão que reconhecem nos filhos, o que chamamos de ilhas de habilidades. No caso da Síndrome de Asperger, esta atitude acaba intensificando o interesse restrito do paciente, piorando a clausura comportamental do indivíduo, tornando-o menos flexível a novos temas”, explica Iara Brandão Pereira, neurologista infantil.

Pensando em auxiliar no desenvolvimento das capacidades múltiplas da criança, a médica listou alguns itens importantes para quem convive com uma pessoa que apresenta este Transtorno do Espectro Autista (TEA).

  • É importante buscar uma interação muito boa entre a escola, a família e o profissional que acompanha o paciente no sentido de desenvolver a reciprocidade social do indivíduo.
  • Diversificar seus focos de interesse para que o paciente dê importância para outros assuntos e desenvolva novas habilidades, diminuindo assim, comportamentos repetitivos e restritivos.
  • Estimular o ‘falar olhando’, desenvolver a cultura do olhar direcionado, com intencionalidade comunicativa.
  • Estimular a criança, por meio de treinos, a reconhecer e compartilhar emoções e expressões faciais, assim como buscar Treino de Habilidades Sociais (THS), como possibilidade de melhoria no seu prognóstico social.
  • Dialogar sempre! Essa é a maneira mais preciosa de desenvolver a inteligência de qualquer criança, com ou sem diagnóstico de TEA.
  • Não criticar o interesse restrito da criança, apresentar outras opções e compartilhar estas ofertas com o filho. Utilize o interesse preferencial da criança como porta de entrada para a interação com ele.
  • Ainda de acordo com a Dra. Iara Pereira, o paciente com Síndrome de Asperger é habitualmente mal interpretado pelos seus pares, não sendo raros os frequentes desentendimentos nos relacionamentos interpessoais, levando ao isolamento social ou quadros depressivos.
 Agressividade, crises de birra, fobias e outras perturbações são manifestações inespecíficas e reacionais que podem estar presentes nesses pacientes, daí a importância do diagnóstico precoce a fim de minimizar disfunções adaptativas significativas”, afirma a neurologista infantil.


O enigmático mundo autista

Muitas vezes tachados de estranhos ou deslocados, os autistas estão presentes com frequência no cinema e na televisão devido às suas características peculiares, que estão sendo pouco a pouco compreendidas pela ciência e pela sociedade. Um exemplo recente de sucesso é o personagem Sheldon Cooper, interpretado pelo ator Jim Parsons na série “The Big Bang Theory”. Apesar de dotado de enorme inteligência, o físico da TV tem pouca habilidade social, não compreende sarcasmo ou metáfora, beirando à inocência. É adepto da rotina, não tem muita empatia para com seus amigos ou namorada e lhe falta também uma dose de humildade. Um tanto exageradas no personagem, as características são típicas da síndrome de Asperger.



O mesmo diagnóstico poderia ser aplicado ao Doutor Spock, da antológica série “Jornada nas estrelas”, de quem, por sinal, Sheldon é fã. Os personagens, portanto, quebram o estereótipo de que o espectro autista deve estar vinculado com algum déficit intelectual e a movimentos repetitivos, como ocorre nos casos de autismo clássico ou grave.



Um famoso exemplo deste quadro é o da Engenheira Temple Grandin, hoje especialista em autismo, mas que na infância não falava, se balançava e gritava, e não olhava nos olhos. Foi após o contato com animais numa fazenda que ela conseguiu vencer algumas de suas limitações.



O premiado longa “Temple Grandin”, produção de 2010 e estrelada porClaire Danes, mostra sua trajetória e uma curiosa invenção: a máquina do abraço, criada após ela observar a técnica de vacinação de vacas, que eram pressionadas por barras de ferro para serem acalmadas.




No filme “Rain Main” (1988), Dustin Hoffman interpreta Kim Peek, portador da síndrome de Savant, que morreu em 2009, mundialmente famoso por sua memória excepcional. Capaz de memorizar 12 mil livros, ele dependia dos outros para ações simples, como se vestir.






A animação “Mary e Max – Uma Amizade Diferente” mostra os problemas dos “aspies”. Na ficção, Mary, de 8 anos, uma menina gordinha e solitária, que mora na Austrália, torna-se amiga de Max, um homem de 44 anos, que tem síndrome de Asperger e vive em Nova York. Ambos têm dificuldade de fazer amigos e passam a trocar correspondências onde compartilham alegrias e decepções. Na animação, Max é um homem de 44 anos que tem síndrome de Asperger (foto).




Especialistas dizem que metade dos portadores desta síndrome é autista e os demais têm deficiência de desenvolvimento e lesões neurológicas.

fonte : http://psicologiaautoestimaebeleza.blogspot.com.br/2013/08/entendendo-sindrome-de-asperger.html